Quando eu era criança, minha mãe entrava no quarto antes que eu dormisse e me abraçava, dizendo: “Durma com os anjos, minha linda.” Depois, num gesto que me parecia muito impressionante e solene, colocava sobre meu rosto um véu imaginário que ela chamava de “o filtro dos sonhos”. Ainda posso ouvir sua voz tão amada dizendo-me: “Pronto, querida, você não terá nenhum pesadelo. Tudo que poderia fazer você sentir medo vai ficar preso na teia do filtro dos sonhos. Você vai dormir como um anjo.”
Até bem crescida, eu me cobria com este véu imaginário, sentindo-me totalmente segura embaixo das cobertas com “o filtro dos sonhos” guardando meu sono.
Minha mãe era meio mágica para mim. Contava-me histórias tão lindas! Suas mãos longas e finas tinham o dom de tornar tudo mais vivo e colorido. Ela me permitia sempre usar, ao máximo, a minha criatividade e imaginação. Ela era “a contadora de histórias”, que me dizia: “Agora, você continua de onde eu parei”, incentivando-me a recriar suas histórias. Meu coração disparava de alegria por poder dar o final que eu queria às histórias de mamãe.
Vindo não sei de que lugar secreto de dentro de mim, as lembranças trazem-me, claramente, o riso cascateado e cristalino de minha mãe. Escuto novamente sua voz profunda e meio rouca, entremeada pelo riso, a dizer-me: “Não fique triste, meu anjo lindo. Vamos nos esconder atrás do ‘filtro dos sonhos.’ Tudo vai ser como você quiser, nada pode atravessar a teia e destruir os seus sonhos.”
Minha mãe era uma sonhadora. Sempre acreditou que, separando os sonhos bons dos maus, poderia realizar só os bons sonhos. Ela sempre me dizia que a vida era para ser vivida com muita imaginação e alguma fantasia.
Gosto de acreditar que consegui realizar muito dos meus sonhos, porém, infelizmente, nem sempre pude refugiar-me na fantasia, e “o filtro dos sonhos” deixou passar muitos pesadelos, difíceis de esquecer e duros de se conviver. Mas, quem não tem pesadelos secretos? Quem já não desistiu de alguns sonhos, que pareciam impossíveis de serem realizados?
Levei muitos anos relutando em admitir que eu e minha mãe éramos muito diferentes. Sempre sonhei ser igual a ela, mas, enquanto ela desenvolveu com perfeição a arte de ver e ouvir só o que lhe interessava, eu aprendi a ver tudo sem deixar passar nada.
Mamãe era sutil como um bom perfume: no falar, no andar, no comentar… Eu me tornei direta, de uma sinceridade que sempre a desconcertou.
Mamãe seduzia com palavras. Podia dizer tudo sem dizer quase nada. Não falava mentiras nem todas as verdades. Deixava todos deduzirem o que ela queria dizer.
Eu me tornei quase rude, na ânsia de ser bem clara em minhas idéias e meus desejos.
Mamãe era etérea. Parecia quase irreal como as histórias que contava. Eu me tornei concreta, palpável, segura.
Mamãe nunca sabia bem o que queria ou se queria. Deixava que decidissem por ela, e todos faziam o que ela queria…
Mamãe era doce, adorável e amável. Dizia e fazia exatamente o que se esperava dela. Nunca consegui saber se ela estava sendo ela mesma.
Eu aprendi a ser eu mesma, mesmo que isso não correspondesse ao ideal dela para mim.
Mamãe me olhava como se eu fosse um ser de outro planeta, mas sempre foi condescendente e incapaz de dizer-me algo ríspido. Apenas sorria o seu sorriso peculiar e comentava:
- Você é igualzinha à minha avó, sua bisavó D.Joana. Tão objetiva, sempre tão preocupada e responsável. Não seja assim, meu anjo, tão dura para com você mesma. Não cobre tanto da vida. Aprenda a sonhar…
Ela passou a vida toda se protegendo ao máximo. Eu aprendi, por amá-la tanto, a proteger.
Não sei quando foi que em minhas reflexões interiores descobri que mamãe usou “o filtro dos sonhos” enquanto viveu…
E eu fui me tornando, sem sentir, o filtro dos sonhos das pessoas a quem amo. Tentando ajudá-las a realizar seus sonhos e filtrando, o máximo, os seus pesadelos. Lutando para manter unida a minha família e toda a minha gente.
Não é tão mau ser protetora. Afinal, é essa a minha natureza.
Eu a herdei não de você, mamãe, mas, como você diria, pareço tanto com minha bisavó D.Joana, a senhora que filtrava os sonhos para fazer felizes a quem amava.
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